Minicontos 

 

Eu erro, tu erras, ele erra

 

 

 

    “Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.” Machado de Assis

 

     Ocorrência linguística de evidente dificuldade em caráter escrito (em redações escolares e até mesmo em meios jornalístico e jurídico) e também na oralidade, a concordância verbal é elemento, acima de tudo, de exclusão social, agindo como uma espécie de termômetro, separando os bons dos maus falantes, o erudito e o ignorante.

 

     Somos um país essencialmente excludente no ponto de vista comportamental, o que não é condição especificamente brasileira. Historicamente, criamos hábitos e signos para separarmos o gentio da nobreza; trajes, comportamentos, alimentos, automóveis, residências, clube dos ricos e clube dos pobres, etc. Com a língua não seria diferente; nas Minas do século XVIII, o tamanho das bibliotecas representava não riqueza mas refinamento intelectual, diria o historiador Luiz Carlos Villalta, pois livro até pouco tempo era inacessível aos humildes, assim como a educação formal. Para o não branco e pobre, escola é praticamente novidade do século XX.

 

     Nesse contexto, temos um prato cheio para a diferenciação social entre os que se utilizam de nós vamos e os que se contentam com o nóis vai. Pesquisas linguísticas demonstram que ocorrências de erros de concordância verbal (como em nóis vai) estão presentes em apenas 3% dos falantes (com mais de 20 anos, moradores das 5 maiores metropolitanas do país) com superior completo. Não é por acaso que construções musicais como “a gente somos inútil” e “nóis fumo e num encontremu ninguém” ganharam notoriedade pelas construções de estilo que criam  um eu estereotipado.

 

     Além das dificuldades educacionais do país, por um lado, com desvalorização absoluta do saber e por outro com os mitos a respeito do ensino de língua portuguesa, associadas a um status quo do falar bem versus a “ignomínia” dos néscios, temos um fator essencialmente linguístico que colabora para os problemas do ensino da concordância verbal. Há muito substituímos, na fala, nossa flexão de seis [eu pego/tu pegas/ele(a)pega/nós pegamos/vós pegais/ele(a)s pegam] para três formas básicas [eu pego/você, tu, a gente pega/vocês, ele(a)s pegam]. Tal fenômeno diferencia ainda mais a língua portuguesa das gramáticas da língua portuguesa real, perceptível aos alunos. E se o ensino não se mostra concreto, em sua realidade prática, português continua sendo a matéria insuportavelmente engolida e apenas tolerada. Por isso temos essa porcentagem imensa de analfabetos funcionais que simplesmente não consegue se comunicar nas modalidades escritas.

 

     O leitor pode estar se questionando se o correto seria o “vale-tudo”, abolirmos os erros de uso em se tratando de concordância verbal. Logicamente, no que tange a ambiente escolar, devemos prezar pelo ensino das modalidades de prestígio; nóis vai continuará sendo sinônimo de ignorância e, embora injusto, nada podemos mudar (a curto prazo) quanto a isso. Mas é fundamental que uma perspectiva mais científica, de reconhecimentos plurais de usos, possa ser encarada, discutida e aceita (em contextos informais) para que possamos demonstrar aos alunos a língua dentro de sua materialidade empírica e heterogênea. Assim, caminharemos para uma realidade em que o intelectual não será aquele que decora regras gramaticais (fato que demonstra apenas boa memória) inclusive em desuso no Brasil (como a mesóclise) mas o que saberá não apenas a maior quantidade de variações linguísticas mas também quando usar cada uma e principalmente refletir sobre seus usos.

 

                                                         *Giuliano Santos é professor em Oliveira.

 

 

 

 

 

                            Cof cof; a dramática gramática!

 

       A linguística é a ciência responsável pelo estudo da língua. 1961 foi o ano da obrigatoriedade desta área do conhecimento ao currículo de Letras – curso desde sempre responsável pela formação de profissionais incumbidos de promover o letramento, ou seja, de auxiliar as pessoas a se comunicarem em sua própria língua (nas modalidades falada e escrita). Ocorre que ainda nos dias de hoje, conforme o Programa Nacional do Livro Didático, 75% dos exemplares nesta área (adquiridos sob o aval do MEC) ainda se limitam a reproduzir nomenclaturas de termos gramaticais, deixando de lado a principal função do ensino de língua portuguesa que é a promoção da leitura, da escrita e da reflexão acerca do idioma.

 

        É o mesmo que o Direito não se amparar nas ciências jurídicas e na filosofia, é o mesmo que a Medicina não se amparar nas Ciências Médicas, é o mesmo que o engenheiro não se amparar na engenharia para exercer sua função. Tal disparate é legitimado por uma tradição colonial, inquisitorial e anticientífica em se tratando do assunto. É a concepção falha e obsoleta de que a língua formal não é passível de mudanças, discussões e reflexões e que deve bater continência à multiplicidade de Gramáticas Tradicionais publicadas no país, sendo que nem elas mesmas possuem uniformidade.

 

        É justificável o fato de a população apresentar aversão à cultura escrita, à leitura, em um país onde a principal emissora de televisão aberta (representada na TV Integração) mantém um profissional que se diz dar dicas de Língua Portuguesa, ensinando o que é certo ou não de se pronunciar (estômago ou estomo, craridade ou claridade), sendo que o próprio sujeito comete igualmente o que ele mesmo denomina de “erro de pronúncia”.  

 

        A língua é um organismo vivo, mutável, simplesmente pelo fato de ser utilizada por indivíduos igualmente mutáveis, incorporados a sociedades também mutáveis. Dessa forma, não é a gramática, por si só, que define o que é certo e errado em uma língua mas o uso. O povo é o dono da língua e não a língua do povo; simplesmente pelo fato do instrumento precisar do usuário para garantir sua existência e não o oposto. Caso contrário, o latim persistiria vivo até os dias de hoje.

 

        A reflexão e discussão acerca de variáveis e ideais de padrão incidindo em termos como “estomo” e “craridade” certamente é muito mais importante, relevante e sincero ao alunado (ou telespectador) do que simplesmente os rótulos de certo e errado. Marisa Monte, cantora da MPB, possui uma canção cujo refrão se utiliza da expressão “Beija eu”; o que seria mais relevante, uma discussão acerca da maior incidência desta utilização nos dias de hoje, no Brasil ou simplesmente a “correção” do trecho, transformando-o em “beije-me”? Se a segunda hipótese, estudar língua portuguesa se tornará tão irrelevante e artificial quanto uma grande parte das propostas gramaticais da tradição portuguesa, repassadas para nosso país e enunciadas como mantras por quem deveria se dedicar às pesquisas linguísticas e repassá-las (como os responsáveis por esses 75% dos livros de português).

 

Publicações como a Gramática do Português Brasileiro, de Mário Perini, e Nova Gramática do Português Brasileiro (ambas de 2010) e Gramática Pedagógica do Português Brasileiro, do Marcos Bagno (2011) – todos linguistas e com décadas de pesquisa em suas áreas - demonstram que a alegação do que é gramatical e não gramatical passa a se tornar algo ainda mais relativo e passível a discussões e reflexões como deve ser toda área de atuação do pensamento humano 

 

 

PELA DIGNIDADE DO IDOSO

 

“já fui novo, sim
de novo, não
ser novo pra mim é algo velho”

 

Ney Matogrosso

 

            Há pouco, tive o prazer e a honra de conhecer uma Associação de Aposentados e Pensionistas, de uma cidade da nossa região. A custo de muito empenho, trabalho e dedicação, a instituição oferece aos associados uma gama de serviços, dentre eles; atendimento médico, psicológico, dentário, salão de beleza, academia, organização de viagens, cursos, oficinas, etc.

 

            É de encher os olhos observar o saudável convívio de senhores e senhoras que se reúnem com o único propósito de gozar daquilo que lhes é de direito; a vida. É criminoso, antiquado e imoral uma sociedade instruída e democrática continuar permitindo que seus idosos sejam relegados como gente de terceira, como se já estivessem fazendo hora-extra em um mundo capitalista e regido pelo norteamento consumista.

 

            É nosso dever moral e legal zelar pelo vulnerável e o caminho mais curto para isto é mostrando ao idoso e a nós mesmos como ele é importante. É fundamental o oferecimento de espaços direcionados a ele. Desta forma, certamente colaboraríamos para o bem-estar e para a saúde de nossos velhinhos.

 

            A vida só é plena se dotada de função, de um porquê. Creio que possuímos aptidões e habilidades diferentes exatamente para sermos igualmente úteis em uma sociedade globalizada e interligada. Não há como visualizarmos obras, empresas, escolas, mesas de cirurgia, etc sem as diferenças, sem a cooperação mútua.

 

            Com os outros animais é semelhante. Ai da onça-pintada se não fosse seu instinto predatório, ai da mamãe tatu se não fossem suas unhas, ficaria sem sua morada e esconderijo (os buracos) e seria devorada rapidinho. Até mesmo as plantas possuem diferenças quanto ao tronco, folhas, raízes, etc.Ou contam com suas especificidades ou não se adaptam ao habitat em questão.

 

            Tivemos um aumento na expectativa de vida e aposentadoria não quer dizer o fim da jornada. Assim como há creches para as crianças, projetos diversos ao portador de necessidades especiais (será?), é dever do Estado propiciar meios que façam o idoso se sentir mais útil à sociedade e que o permita ter funções, mesmo que estas sejam ligadas a atividades recreativas, esportivas, religiosas e por que não amorosas?

 

 

 

 

 

Dinheiro, o país do futebol

Sim. Minha vegetação capilar há muito vem passando de Mata Atlântica (esta heroína da resistência) para cerrado, próxima a se tornar caatinga. Devo estar trocando o jogo de tênis pelo de xadrez (na pracinha, é claro), ouvindo Frank Sinatra e não Los Hermanos. Devo ter ido num salto para a terceira idade.

 

O motivo? O leitor, no frigir dos ovos, vai concluir que estou com um discurso saudosista, no mínimo grisalho. Mas a verdade é que o futebol, enquanto diversão das massas, descansa em paz. A globalização tem a cada dia mais atingido os gramados.

 

Parece que estamos europeizando um de nossos maiores símbolos. Pois cada dia é mais escassa a presença do pobre nos campos, graças às fabulosas reformas a que nossos estádios estão sendo submetidos (muitos deles com grana pública). A justificativa? A Copa do Mundo trará infinitos rendimentos. A quem? Ainda que traga empregos temporários, quem seriam os poucos prestigiados por este evento se não os grandes empresários (alguns estrangeiros, por sinal)?

 

Gerais e arquibancadas que permitiam, a baixo custo, um show coreográfico e uma empolgante orquestra de vozes entoando hinos e cantos vão aos poucos sendo substituídos por frias cadeiras, as quais convidam os torcedores a assistirem ao espetáculo sentados, talvez batendo palmas. Daqui a pouco, os churrasquinhos, tropeiros e cachorros-quentes darão lugar a salmões grelhados e escargots. A cerveja já está proibida em alguns estádios. Que tal substituí-la por um chá inglês em pleno verão carioca?

 

Tenho ouvido comentários, sobretudo a respeito da Copa. A realidade é que a grande parcela da população (principalmente a não abastada) nem almeja assistir aos jogos no próprio país, graças aos altos valores dos ingressos. E não é só na Copa; no último Atlético-MG e Guarani (Divinópolis), uma vaga em uma arquibancada ensolarada ultrapassava 100,00 reais.

 

Isto talvez deva explicar o atual desinteresse do torcedor em acompanhar os jogos da seleção (ainda que na TV). Parece que o tom mercadológico do futebol, agregado a jogadores com muita grana e pouca identificação com o país, a desconfiança quanto a trapaças, armações e viradas de mesa e as figuras antipatizadas como a de Galvão Bueno, Pelé e Ronaldo Fenômeno têm transformado o nosso mais popular esporte em artigo de grife do velho mundo.

 

 

 

ESTUDAR DEIXA LOUCO?

            Acredito que cada um dos leitores já ouviu pelo menos uma vez a máxima que garante serem bibliotecas, livros e cadernos uma espécie de oficina da loucura. Até onde iria o mito e até onde a verdade estaria ligada a esta informação maliciosa?

            Li certa vez o poeta e crítico literário Ezra Pound tratando sobre o assunto. Defende o “estadunidense” que: “O conceito de gênio como próximo da loucura foi cuidadosamente fomentado pelo complexo de inferioridade do público”. Ou seja, é mais encararmos a genialidade, o talento, em qualquer que seja a área, como algo doentio do que aceitarmos a posição de inferioridade. Acho que entendo porque sempre procurava defeitos em um amigo galã, da adolescência.

            Vejo pertinência na observação de Pound. O estudo, seja ele das plantas, dos animais, do comportamento humano ou dos livros é o maior e mais eficaz alimento para a mente. Aquele que não busca o conhecimento se afunda, engasga-se verticalmente em sua própria convicção e ignorância.

            Se estudo deixasse alguém louco, estaríamos vivendo em uma espécie de barbárie legal. Isto mesmo, não haveria juiz bom de cuca. Com a concorrência nos concursos públicos, desconfio que um candidato, com menos de 6 horas diárias de leitura, em anos a fio, não consiga chegar ao sonho da magistratura ou a se tornar promotor de justiça.

            E não são só os magistrados. Com o crescimento das faculdades, sobram profissionais disputando suas vagas. O médico, o dentista, o professor, o motorista, o auxiliar administrativo, etc estão todos doidos, birutas porque conseguiram, por concurso, trabalhar em seu município, estado ou união.

            Como Pound, creio que a lenda de se atribuir doideira ao estudioso vem de um passado histórico distante da cultura escrita e que nos fez criar um lamentável mecanismo de defesa contra quem busca os melhoramentos profissional, pessoal e espiritual no conhecimento transmitido por livros, apostilas, cadernos, computador, etc.

            Não batamos mais em nossos peitos debochados com o orgulho de dizer que nossa escola é a vida, mas sim de afirmarmos que temos cada vez mais gana de aprender. Só assim, assumiremos de vez que estamos construindo uma sociedade cada vez mais letrada e, quem sabe num futuro próximo, capaz de competir de igual para igual com países europeus.

 

 

 

 

Faz de conta que tem bola

 

     Há meses, uma verdadeira campanha se alastrou nas redes sociais, jornais, rádios e até na Câmara Municipal, solicitando uma medida para que seja regulada a questão do uso de sons no município de Oliveira, como ocorre em diversas outras cidades. Em tempo, a partir de novembro já está em vigor uma Lei que estabelece limites contra os abusos dos sons altos.

     Despindo-me do Romantismo (não da tragicidade), recordo-me da infância. Assim como a maioria dos garotos da minha idade, tinha o hábito de jogar futebol nas ruas, embora nem assim tenha aprendido. Ocorre que muitas vezes faltava a bola, principalmente quando um dos meninos, tendo perdido ou sendo substituído, sendo dono da bola, simplesmente a levava embora. Primeira reação? Faz de conta que tem bola.

    Esta é a realidade de uma lei que não pode ser cumprida pela ausência de um instrumento fundamental para sua aplicação, e mais barato que muitas bolas no mercado, algo que não chega a 300,00 reais. Imaginem um regador sem furos, um fogão sem gás (ou lenha), namoro sem beijinhos, carro sem combustível. É o mesmo que uma lei a favor do sossego público sem o DECIBELÍMETRO. 

     Lamentavelmente, vivemos em uma sociedade tão pautada no individualismo que é necessária ingerência estatal para se assegurar uma direito indissociável à coletividade, que é o sossego público, isto sem contar o meio ambiente. Sim, sair por aí com o som automotivo às alturas não incomoda apenas o bom gosto musical mas o meio ambiente. Até os miquinhos, as patas-de-vaca e as graminhas possuem capacidade intelectual suficiente para perceber o quão ofensivas são determinadas letras que, à força, embalam nossa trilha sonora da insônia em fins de semana e festas locais. 

     Creio que encontros de sons automotivos devam ser bem regulamentados quanto a ruído, local e horário. Devem existir sim, os apreciadores também são povo e possuem direito de ter sua diversão, desde que bem regulamentada e que não ultrapasse os limites do bom senso, principalmente incomodando o restante da população. Há ruas inteiras em Oliveira que são atingidas quase diariamente, em horários mais variados por causa do interesse de um indivíduo que não pode ficar sem ouvir sua música em limites inimagináveis. 

     A Câmara Municipal foi cobrada, em outubro, para a aquisição do decibelímetro. Até agora, só a lei. Só o futebol sem bola. O que nos separa de uma fiscalização efetiva sobre o assunto é um aparelho com o custo inferior a 300,00. Enquanto não podemos ser amparados pelo poder público quanto a esta quantia faraônica, a única coisa que nos resta é pedir para o leitor, para o usuário de sons automotivos, o pai, o conhecido de usuários que solicitem por bom senso. Arredores de hospitais, igrejas, escolas, ruas próximas a bares são apenas alguns dos lugares alvejados por este desrespeito, sem contar as altas horas da madrugada. 

     Pensei em pedir este jornal para publicar este texto sem o uso de tintas. Acho que o leitor poderia perceber melhor o que é uma lei sem o instrumento que a possibilite, mas que fique todo espaço em branco deste periódico como lembrete.

 

 

 

Clássicos Literários Expulsos?

            Recentemente, li em um jornal uma reportagem sobre a relevância de se apresentar os clássicos literários (Machado de Assis, José de Alencar, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, etc) em sala de aula. A proposta seria que Best-sellers seriam mais atrativos ao alunado, aumentando, consequentemente, o índice de leitura no país.

            Não há dúvidas que a apresentação pura e descontextualizada de Iracema (José de Alencar) a um jovem de 15 anos, via de regra, torna-se pouco eficiente. É necessário todo um trabalho sobre linguagem e cultura de época, sobre intenção do autor, etc. Mas é lamentável substituirmos cursos de literatura por livrinhos hollywoodianos sobre vampiros ou autoajuda simplesmente por serem mais fáceis.

            Vamos substituir a geografia por fotos de paisagens, a matemática pela iniciação ao uso da calculadora, a química pelo livro de receitas. Por que são mais fáceis. Virou pecado capital ensinar o complexo porque pode ser traumático ao aluno ter de estudar para a prova. Daí criamos uma sociedade que acredita ser o raciocínio coisa de coroa, do passado, fora de moda porque o quente é ler resumo de novela, é seguir no Twitter a popozuda do BBB, cuja única virtude foi escancarar, em rede nacional, sua beleza fabricada. Há pessoas mais indecentes vestidas do que nuas. Mais erradas em seu silêncio perturbador do que quando fala seus nadas, seus vazios.

            Tempos globalizados, passagens aéreas baratas. Encontra-se um colombiano que fala sobre o Garcia Marques, um chileno que ama o Neruda, um argentino viciado em Borges, um portuga fã do Saramago e um brasileiro que não vive sem o Bial. Porque pra ele, Vinícius de Morais era ator da Malhação, Cecília Meireles, alguma siliconada do Faustão e Gregório de Matos, um padre amigo do vovô. Barroco pra ele seria toda cidade velha, Romantismo seria coisa de mulher e Arcadismo alguma escola de arco e flecha. E aí fica citando errado a Clarice Lispector e o Caio Fernando Abreu no Facebook .

            Ensinar os clássicos literários em escolas não é luxo de intelectual falido. A Constituição Federal (Art.215), nosso mais alto expoente legal, determina ser o Estado garantidor do acesso às artes e manifestações culturais. Então estaria a escola brasileira correta em relegar o ensino da literatura a segundo plano? Não estaria a educação infringindo a legislação maior ao substituir as artes (teatro, pintura, música, etc) por atividades diferentes como picotar papel, simplesmente por picotar?

            A meu ver, a educação “pode” mas não “deve” ser legal, divertida, pelo menos o tempo todo. Quem não gosta de associar um conteúdo escolar ao dia-a-dia ou aprender história de maneira engraçada? Mas sempre haverá conteúdos menos interessantes a cada um de nós, eternos estudantes, e nos cabe estudar, simplesmente estudar (dentro ou fora do colégio). É dever de nós (sociedade), preparar nossas crianças e jovens para isto porque quando crescermos não vamos para o trabalho por ser legalzinho mas simplesmente por nos ser necessário.

 

 

 

Silêncio

 

         Se não me falha a memória, certa vez, li em alguma obra do Graciliano Ramos que o silêncio deveria ser como água, gratuito. O alagoano, além de excelente romancista foi um cara que se destacou pela sobriedade, por ser contido, discreto.

 

         Qual seriam os limites entre o direito ao barulho e o dever de se garantir o silêncio, o sossego alheios? Por um lado, o direito a se ouvir uma música, a se divulgar uma marca, a se organizar festas e eventos. Por outro, o dever de colaboração com o bem-estar e com a tranquilidade do próximo.

 

         Atravessamos um ano eleitoral e tive o desprazer de ser vitimado pelos cifrões de um candidato que fez questão de revertê-los em jingles mais variados e retóricos possíveis, embalados por motos e carros de som. Cheguei a curtir um pesar imenso por ter de dormir nas madrugadas, único momento do dia longe das pegajosas, grudentas, pestilentas musiquinhas de políticos. Será que sãs famílias são a elas submetidas?

 

         E o pior é que tal candidato se aproximou de mim certa vez, garantindo que, na Câmara, lutaria por uma cidade mais digna e atrativa. Não perdi a oportunidade e sugeri que iniciasse pela limpeza sonora. Bateu em retirada com um sorriso amarelo, acompanhado por um puxa-saco me fazendo beicinho.

 

         Candidatos, empresas, entes públicos, prestadores de serviços, dentre outros têm o direito e às vezes o dever de se comunicar. Mas seria uma atitude democrática e justa submeter cidadãos a conviver com uma miríade de sons e refrões em nome, muitas das vezes, da ganância e do lucro? Ultrapassaria o direito de uma igreja, de uma loja em liquidação ou mesmo de um adolescente com seu som potente o direito do indivíduo de querer escolher seus próprios sons ou a ausência deles?

 

         Creio que seja o bom senso a saída para tal imbróglio. E, sinceramente, entre o egocentrismo de um motorista de possante com seu som turbinado e o direito do cidadão a ler um livro, a assistir a um filme, a descansar, orar, relaxar, coversar, fico com o segundo. É muito mais fácil empresas, igrejas, motoristas e candidatos se ajustarem a volume, horário e frequência do que o cidadão abdicar de seu direito ao sossego.

 

         Leis existem em esferas municipais, estaduais e federal que regulamentam a geração de ruído. O que falta no país dos impostos é a eficácia da fiscalização. A certeza da punição certamente inibiria o jovem turbinado, o candidato inconsequente, a igreja incoerente e a empresa infratora. E cada um de nós compartilhemos com nossa dose mínima e diária de cidadania, contribuindo para uma sociedade do bom senso e do pensamento coletivo.

 

 

Os introspectivos

 

         Muitas vezes confundidos com os tímidos, os introspectivos com frequência são incompreendidos na sociedade do espetáculo em que vivemos. Tímido é o sujeito que se sente mal com a exposição, o cara que embebeda antes de conhecer o sogro. Introspectivo é o cidadão que se sente bem ao estar sozinho, que não se entristece com a solidão, muito pelo contrário, dela necessita.

         Vivemos em uma sociedade que valoriza cada vez mais os “eus exteriores” que cada um de nós temos. Não importa o que você é se isto não é postado nas Redes Sociais a 7 ventos. Não faz muito tempo que marqueteiros começaram a moldar a figura de políticos para que a gente pudesse por eles sentir alguma simpatia e consequentemente votar (como se voto por simpatia fosse coisa de gente honesta). Um candidato retraído, ainda que competente, não teria a menor chance nas urnas se não macaquear frente às câmeras e se mostrar um sujeito carismático.

         Certa vez dialoguei com alguém próximo sobre a relevância de cerimônias matrimoniais. Aleguei que um ato de fé nem sempre requer uma multidão à volta, trajes caracterizados, banda, orquestra, etc. Por outro lado, os cartórios legitimam o ato jurídico “casamento” sem a necessidade de maiores formalidades. A resposta que obtive me desarmou: “É para que os outros vejam”. Ou seja, não é por amor a Deus X ou Y nem à(ao) própria (o) noiva (o). A discussão não merecia prosseguimento.

         Vai-se a um evento religioso para se mostrar, apresentar vestido novo e não pela fé. Não se ouve música por gosto, coloca-se no último volume para que todos se desesperem juntos. Não se compra um automóvel por necessidade, mas para disputá-lo com o do vizinho. Não se relaciona com a Bruninha porque ela é sensível, culta, de bom caráter ou por amor mas para se pegar em suas mãos e se iniciar um desfile, onde todos vejam o casal de pavões. Para que os outros a desejem.

         Vivemos na sociedade do espetáculo. Não importa o que somos se devemos estar sempre em atuação nesse palco artificial e preconceituoso que construímos, de máscara em máscara. E nesse contexto, não há espaço para o introvertido, o sujeito afeito à reflexão, o cara que não tem respostas prontas e nem belas mas que necessita de tempo, a sós, para mudar o seu mundo. Isaac Newton, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Kant são exemplos de gente que não precisa se adequar à sociedade para se sentir nela. Cabe a nós respeitarmos o introspectivo não como alguém que precisa se curar, mas como um indivíduo com suas próprias características.

 

Vermelho ou Gostoso?

 

         Dia desses estava passando o tempo com a página de ciência de um jornal. Uma descoberta sobre o tomate me proporcionou uma verdadeira viagem (desconheço cronista que não seja um viajante; meio guru, meio duende, mais para esquisito). A pesquisa se referia ao porquê dos tomates terem perdido seu sabor. A resposta seria o fato de serem colhidos ainda verdes para amadurecerem só depois e ficarem ainda mais vermelhinhos, atraentes.

        Quantos de nós não somos tomates vermelhinhos em nossa vida? Quantas vezes não nos preocupamos exageradamente em manter uma aparência que nos faça ser aceitos em um determinado meio sem necessariamente trabalharmos para nossa formação enquanto indivíduo, enquanto ser humano? 

         Não sejamos extremistas nem nos banhemos no senso-comum bipartido de separar o cara malhado do intelectual espinhento, a mulher saradona da caxias de óculos fundos. Por que não sermos um pouco de cada? Por que não nos deliciarmos com uma crônica do Veríssimo enquanto pedalamos numa ergométrica? Por que não conhecermos um pouco mais de Jazz, de viola caipira e de música clássica enquanto corremos nas avenidas e pistas de nossa cidade? 

         É o extremo estereotipado que muitas vezes nos condiciona a seguir uma massa uniforme, e pior; nela crer como único meio de vida. Crer no sabor do tomate pela sua cor é tão imaturo quanto desprezar que armazenamento, transporte e resfriamento podem alterar aparência e gosto das coisas. 

         A Martha Medeiros afirma que conhece as pessoas interessantes pelas suas falhas, não são super em tudo, sofrem sorrindo de suas dores e deficiências. Assim somos nós; mesmo que não possamos desfilar com aquele narizinho arrebitado da vizinha, temos mais tempo para a família que, ao contrário da dela, mora pertinho.

         Tenho um amigo absurdamente avesso à mínima manifestação artística, cultural ou às letrasem geral. Nãoé capaz de diferenciar Chico Buarque, Chico Science e Chico Mineiro. Muitas vezes tive o ímpeto de defendê-lo em alguma rodinha “fodástica” em alguma coisa. Desconheço sujeito mais hábil nos mais diversos serviços manuais; é o cara que te conserta o cabo do acelerador na estrada baldia na pescaria, o sujeito que te arruma o molinete de 7 rolamentosem pleno SãoFrancisco, o indivíduo que faz fogo em dia de chuva no acampamento. Mas é incapaz de emitir opiniões; um verdadeiro Deus da praticidade, com as maiores dificuldades de expor qualquer sentimento. 

         Juro que decepcionei uma carrada de leitores que juravam ler mais um texto do cronista chato e moralista, que detonaria o pobre do tomate vermelho e despreocupado com o próprio sabor. Que nada! A casca também é importante, assim como o conteúdo. Mas saibamos pautar a quantia de cada um; sejamos minimamente interessantes. Assim como os tomates, vermelhos e/ou gostosos.

 

MANIA DE DOENÇA

          Febre, tremedeira, hipertensão, dor de dente, garganta ruim, arritmia, etc. Se o leitor, ao se deparar com esta listinha, enxerga um cardápio repleto por uma diversidade imensa de oportunidades, certamente se enquadra na figura que iremos homenagear nesta crônica: o hipocondríaco, ou aquele com mania de doença.

         Quem não conhece o sujeito que chama o farmacêutico pra padrinho do caçula? Aquele cara que tem sempre a expressão de piedade compulsiva não pode comer que o estômago responde mal e se não comer, dá vertigem, fraqueza. Quando chove, é gripe na certa, com jeitinho de pneumonia. Se tem sol, dá enxaqueca (o que ele diferencia detalhadamente da dor de cabeça e do princípio de sinusite que ataca quando venta) e até sobe a pressão que não anda nada bem.

         Tirou o apêndice na adolescência, por precaução, e ainda sente o danado. É que não o enterraram direito! Não joga mais bola porque tem uma fisgada na coxa esquerda. Saiu da academia porque é alérgico a suor e tem virose direto, com aquela profusão de microorganismos. Mas anda deprimido, preocupado com o sedentarismo. Isso ainda afeta o coração!

         Hipocondríaco não pode ver dia de festa, feriado, etc. No último Natal, saiu de ambulância, não conseguia respirar porque foi contar pra cada convidado o que tinha acontecido no aniversário da Clarinha, emocionou-se e pimba! No carnaval foi um problema, sentiu tontura, teve que voltar pra casa, deu trabalho. Também, foi tirar o gosto da vodca com o antiinflamatório.

         No fórum, é requerente de uma dúzia de ações. Tudo por dano moral contra o salafrário do clínico geral que não receita nem analgésico. Falar em fórum, a menina do atendimento ficou de levar um chazinho de agoniada pra ele. Disse que cura qualquer desconforto abdominal. Tá pensando até em plantar uma horta medicinal em casa.

         Se o leitor conhece um hipocondríaco, vai a dica de nunca perguntar como ele está passando. A não ser que esteja disposto a escutar um catálogo médico decorado, indefectível. É sempre aquela voz manhosa, gemendo clemência com os olhinhos apertados; Eu num to bem não, viu?

         Quer deixar o hipocondríaco nervoso? Peça um atestado médico ou a receita pra comprar o elixir onipotente que ele tanto sonha. É capaz de juntar as forças armazenadas que lhe restam e o atacar com os mais moralistas dos argumentos. Quando não te joga Deus na cara.

         Se o Roberto pode homenagear as gordinhas, porque este cronista não pode olhar pelo desamparo daqueles que têm mania de doença? Hipocondríacos, recebam este abraço desprovido de bactérias e saibam que compreendo toda a carência de atenção e cuidados de todos vocês. E se espirrar, saúde! 

 

Os 100 Maiores do Brasil

              Recentemente, fui abordado no início do meu sono, via mensagem de celular. O assunto: Os 100 Maiores de Todos os Tempos. Já tinha ouvido falar sobre esta lista e sinceramente não havia dado atenção. Principalmente por se tratar de uma votação aberta. Não, não se trata de um pensamento elitista ou antidemocrático. Conheço o meio em que vivo e sei exatamente quem é valorizado pela maioria das pessoas.

               Listarei alguns dos nomes mencionados para o nosso delírio.

               Marcos, Ronaldinho Gaúcho, Dedé, Sócrates, etc. Citados unicamente por fanatismo futebolístico. Cabe desprezar estes nomes, por se tratarem de atletas que fizeram (ou não) seu melhor para seus clubes e para si mesmos.

               Roberto Marinho. Aconselho o leitor que por acaso desconheça sobre o assunto a pesquisar a respeito da concessão dos direitos televisivos ao empresário, durante a ditadura militar. A (má) influência da TV Globo na política, por exemplo, é tamanha em nossa história que já praticamente elegeu um presidente e depois o retirou do cargo.

                Falar em presidente, sabe quem esteve na lista? Fernando Collor de Melo. Estaria entre os 100 maiores do país por ter sido destituído do cargo ou por ter chefiado esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de influência? Talvez por bloquear a poupança de correntistas que decretaram falência após o confisco do bonitão alagoano.

                 Rodrigo Faro, Hebe Camargo, Gugu Liberato e congêneres foram citados, inclusive com grau de importância maior que Carlos Chagas, Vital Brasil e Maria da Penha. Animadores de TV, são símbolos de uma sociedade que, parcialmente, encanta-se pelo circo televisivo.

                 Luan Santana, Tiririca, Reynaldo Gianecchinni, Pastor Silas Malafaia, Luciano Huck, Edir Macedo estão acima de Zumbi dos Palmares, Carlos Drummond de Andrade e Marechal Rondon.

                 Inicialmente me senti pesaroso pelo resultado desta enquete, mas depois acho que os próprios brasileiros, que, a meu ver, foram significativos para o povo e Estado brasileiro se sentiriam ofendidos ao verem seus nomes ladeados por figuras pitorescas e egocêntricas, cuja única virtude foi encher seus bolsos e estampar suas caretas nos holofotes da fama.

                  Por outro lado, é preocupante refletir acerca das escolhas que fazemos. Se um povo elege o Neymar, a Ivete Sangalo e o Roberto Justus como personalidades de todos os tempos de nosso país, também elege representantes que veem política apenas como um meio fácil de enriquecimento. É por isso que nossa saúde pública está na penúria, é por isso que nossa educação passa por esta crise sem fim. Mudaria apenas um nome na lista dos 100 maiores do Brasil (às avessas). Em primeiro lugar estaria o povo brasileiro, que só perderíamos o posto quando aprendêssemos a escolher pelo menos nossos representantes políticos.

 

Leitura de livros reduz pena

          O Departamento Penitenciário Nacional acaba de publicar uma portaria nada convencional no que tange à redução de pena. Livros filosóficos, científicos ou de Literatura Clássica serão disponibilizados nas penitenciárias nacionais a fim de que sejam lidos pelos detentos. A novidade é que os presos terão um prazo de 21 a 30 dias para apresentarem uma resenha a respeito da obra e conseguirem, através disto, uma redução de 4 dias (por livro lido). 

         Conhecedor do discurso de grande parcela da população acerca da violência e da aplicação de penas (muitos defendendo pena de morte, tortura e prisão perpétua), discurso este endossado prioritariamente pela mídia sensacionalista, amparada principalmente por profissionais como José Luiz Datena, arrisco-me a posicionar-me favoravelmente à portaria. Não apenas por nossa legislação estabelecer que a função primordial das penas é a ressocialização, mas por acreditar que o acesso à cultura e às artes é um grande caminho para se possibilitar a recuperação do indivíduo através da consciência e da informação.

          Não estou afirmando que artistas e intelectuais são tudo boa gente. FHC, Adolf Hitler, José Sarney e Camões que o digam. A questão é que o acesso à filosofia, aos conhecimentos científicos e artísticos é um importante meio para permitir ao cidadão se ressocializar, a compreender o que está à sua volta e a si mesmo, a almejar uma posição social por meio do trabalho (lícito).

          A educação, quando pautada no raciocínio, integra, possibilita que o sujeito não apenas compartilhe o sentir (de personagens, por exemplo), como também o capacita, pelo letramento e conhecimento científico, a buscar uma qualificação profissional, a competir de igual para igual em concursos públicos. O mercado pede, clama por trabalhadores críticos, capazes de interpretar situações e lidar com adversidades, capazes de criar, inovar. E desconheço outro meio, em tempos globalizados e regidos pela cultura escrita, para se chegar a este patamar, senão pela educação, por meio da leitura de filosofia, e/ou de literatura clássica e/ou de obras científicas.

          Defender a permanência de criminosos perpetuamente em cárcere como meio de coibir a violência não parece coerente com os dados divulgados pelo Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), já que nos últimos 21 anos a população carcerária cresceu 472% e a criminalidade, em contrapartida, enquanto que em 1979, havia 9,4 homicídios por 100 mil habitantes, em 2010, o número aumentou para 27,3.

          Não é construindo cadeias, torturando infratores ou aplicando pena de morte ou qualquer outro meio bárbaro que se chegará a uma redução criminal no país. E isto não é proteger delinquentes, ao contrário, é buscar um meio eficiente para se combater a chaga da violência urbana pela ressocialização e reinserção do preso à sociedade. E este parece ser o raciocínio do DEPEN.

 Aplausos à portaria.

 

Presente de Grego

         Há alguns anos fui presenteado com um destes livros que prometem resolver as questões mais cabeludas da humanidade. Não entendi o porquê de tal agraciamento que não seria tão trágico se o catatau não tivesse 693 páginas e se a alma amiga não me cobrasse semanalmente por pareceres a respeito de tão “revolucionária” obra.

        Em xeque, tive de optar por duas alternativas; arriscar a sinceridade e desgostar profundamente um amigo ou ter uma opinião, mesmo que geral do auto-ajuda. Mesmo ouvindo clamores de virtude retumbando em meus tímpanos como um mantra (Diga a verdade!), preferi ler o sumário, alguns capítulos inteiros, início e fim de outros, etc.

         Confesso que a cada frase de efeito lida, nauseava-me a consciência me expondo, como em um estande de livraria, os clássicos que não li. Que naquele momento poderiam estar sendo devorados.

         Em um ataque de fúria, arranquei meia dúzia de páginas ao me deparar com a biografia do autor (verdadeiro especialista em mente humana sem sequer ter pisado em uma faculdade de psicologia). Sua foto denotava a figura inorgânica, imaterial de um ser maquiado, pouco abaixo de Deus por pura modéstia e acima de toda a humanidade. Uma mescla de elegância, sabedoria e poderio econômico.

        Houve ocasião em que tentei esconder (sem sucesso) o bendito gorducho, mas sempre me passava um engraçadinho a fazer piada do título. Era difícil arranjar desculpa:

       - É que vou dar de presente.

         Pensando no que diria um terapeuta ao presenciar meu nervosismo, tentei tirar proveito da minha empreitada literária. Riscava, vingativamente, os pontos mais controversos, irrisórios do best-seller. Assim, entre florais, bicarbonato e persistência, venci o meu karma.

         Afoito, fui relatar minha cáustica opinião a meu algoz (o que me presenteou), que secamente e de prontidão me respondeu que sou pequeno demais pra entender a alma de um auto-ajuda.

 

 

Lei barraria Guimarães Rosa nas escolas

               Recentemente, o projeto de lei de número 1983/2011, do deputado Bruno Siqueira (PMDB), quase foi aprovado. O conteúdo restringiria a adoção, pelas escolas públicas ou privadas do estado, de qualquer material didático cujo conteúdo fizesse menção a erotismo, violência ou que “transgredisse” de alguma forma a norma culta (ou padrão) da língua portuguesa. 

              Considerando as proibições do famigerado dispositivo, ficaria difícil de se encontrar autor para se trabalhar em sala de aula. O pobre do Gregório de Matos, com toda aquela presença de espírito sarcástica, seria o primeiro a dar adeus às escolas. Praticamente toda a turma que escreveu desde a década de 1930 seria enxovalhada, expulsa do Templo da Ignorância. 

              Guimarães Rosa, certamente um dos três melhores romancistas do país, não pisaria nem no portão dos colégios mineiros, pois inaugurou um estilo próprio em solo nacional, repleto de palavras novas e uma densidade narrativa ímpar, provocada não apenas pela reprodução do dizer caipira mas pela força dramática e filosófica com que suas personagem desfilam nos Grandes Sertões e nas Veredas Sertanejas. 

              Não acredito que excelentíssimo deputado tenha agido de má-fé. A intenção foi angariar alguns votinhos de parcelas puristas da população que acreditam que escola não é local para se discutir diversidade lingüística, para se discutir sexualidade, para se debater acerca de violência, de pluralidade de culturas e comportamentos. 

              Um Estado Democrático de Direito que se preze não educa seus cidadãos com uma concepção única de certo e errado, pois reconhece o valor do homem do campo, do rapper, do favelado, do mauricinho, do judeu, do evangélico, do umbandista, do homossexual, etc. Qual de vocês, leitores, não leu na infância o Chico Bento e o Cebolinha. Isto fez com que os senhores escrevessem ou falassem como eles? 

              Ocultar nossa formação histórica, nossos hábitos e diferenças linguísticas em um ambiente de pluralismo ideológico (como devem ser as escolas) só geraria ainda mais intolerância e preconceito em nossos jovens. Se não fossem um abaixo-assinado virtual e uma forte comoção nas redes sociais, uma lei retrógrada, inquisitorial e totalmente desconhecedora das propostas pedagógicas nacionais seria aprovada e possivelmente estaríamos regando uma geração ainda mais avessa à leitura e desconhecedora de nossos clássicos literários. 

              Deputado Bruno Siqueira, o senhor por acaso acompanha a luta diária que os nossos desvalorizados e injustiçados  professores travam para desempenhar seu ofício? O senhor sabia que agressão a docente já se tornou rotina em algumas escolas brasileiras? O senhor sabia que o desinteresse pelo magistério aumenta a cada dia, fazendo com que tenhamos que improvisar profissionais não especialistas? O senhor sabia que nossa Constituição Federal legitima as diferenças sociais? Se o senhor não pode ajudar, defendendo um salário digno para aqueles que educam os cidadãos que  representa, criando melhores condições de trabalho em ambiente escolar, pelo menos não atrapalhe. 

 

 O puxa-saco

 

     Sempre me chamou profundamente a atenção a figura do puxa-saco. Evitado por todos na empresa, o destruidor de rodinhas não raramente costuma conquistar lugares ao sol em troca da própria ética e socialização. Adquiriu este nome provavelmente através de uma gíria militar. Muitos dos oficiais guardavam suas roupas não em malas, mas em sacos, durante as viagens. E, obedientemente, alguns soldados se predispunham a carregar a bagagem dos superiores como prova de “respeito” e amizade “despretensiosa”, é claro.

     Antes de ser acusado de homicídio, por enfartar meus leitores, por amargar suas bocas, por elevar sua pressão ao bendizer de tão odiada criatura, defendo-me afirmando que sou apenas o cronista. Não me queiram mal nem insiram meu nome no despacho, que o puxa-saco sobrevive e se multiplica e nada posso fazer. Enquanto houver carência afetiva no mundo, lá estará o puxa-saco, responsabilizando-se por garantir a auto-estima do diretor, por levar-lhe sempre o caloroso e fiel abraço.

     Puxa-Saco que se preza resiste ao tempo, não entra em desuso. Quem nunca teve o coleguinha de colégio que delatava as mínimas traquinagens e ainda recebia elogios da tia? Perdoem-me os diminutivos, mas quem não conheceu o vizinho engomadinho que se deu bem na vida por cuidar do chefinho? Estamos mal preparados para lidar com o puxa-saco porque não suportamos seu sucesso; desagradável que é, não se esforça para escamotear sua bajulação e principalmente suas conquistas.

     Tem puxa-saco que abre as canjicas só de ver o “agraceado”, atravessar a rua e desfere tapinha nas costas, prevendo os cifrões. Capacho que é capacho deixa o Cruzeiro e vira Galo de coração, decorando escalação e tudo. Já ouvi dizer que alguns até colocam foto do patrão na parede, só pra não se desviar do objetivo. E aqueles que fazem hora-extra de graça, furam greve, mandam música na rádio?

     Há casos em que o puxa-saco delata a firma inteira e ainda sai ileso porque nele ninguém toca. Capacho de primeira só anda alinhado e não perde a pose, escancara o sorriso amarelo antecipando a piada do chefe. E o sorriso do puxa-saco é inigualável, diferente de todos os outros, é intenso, iluminado, quase apaixonado. O capacho está acima dos simples mortais, não se mistura porque faz questão de nos irritar com isso. E quando bebe? Puxa-Saco tonto inicia palmas pro gerente, “empresta” a mulher pro sujeito dançar, fala mal do inimigo do cara, presenteia, faz discurso, beija o rosto, etc.

      Bom, para finalizar, peço do fundo do peito, leitores, que não me julguem puxa-saco, mas precisando de alguma coisa...

 

 

 

Velho pra sorrir


     Sempre me chamou a atenção uma mesa de bar ou uma roda na balada composta por pessoas mais velhas que eu. Nada de fetiche com novinhas ou velhinhas, com tatoos ou rugas. O que sempre me encantou foi a força com que lutam aqueles que estão à margem de um sistema paranóico e utilitarista como o nosso.
     Não estou aqui para alegar que os idosos ou coroas são de alguma forma inválidos. É exatamente o contrário. A pessoa da dita classe média cumpre um papel social que é se casar, ter filhos, um carro popular, obter móveis, uma casa razoavelmente cômoda e transparecer a imagem que está tudo bem. É como se o indivíduo não fosse mais atrativo aos desmandos de uma vitrine de grife ou de uma concessionária.
     Há muito pouco tempo, sentia ares de chacota ao ver jovens comentando que havia um cinquentão bêbado ali querendo papar brotinhos ou então que a coroa estava procurando algum meninão sarado. Não haveria nenhum problema nisso, mas e quanto à hipótese destas pessoas serem pais, mães ou avós de família separados e que simplesmente queriam mostrar que ainda estão em campo? Quer dizer que o ser humano, depois de atingir determinada idade não é passível mais a surpresas, paqueras, danças ou até a porres?
     Não sou sociólogo, psicólogo mas desconfio que a sociedade relega uma boa parcela de seus cidadãos a último plano simplesmente porque supostamente cumpriram seus papéis enquanto geradores de prole. É como se não pudessem mais viver apenas para si, mas teriam que ser apenas pais e mães até de filhos barbados e distantes.  Mas sempre somente pais e mães. Depois que viramos avós, muitos tentam nos relegar a um desprezo absurdo, como se não fôssemos os mesmos, modificados pela maturidade.
     Não me canso de atirar minhas pedras verbais no consumismo. É a valorização dos bens, do vil metal, da beleza midiática, artificiosa, fantasiosa e banal que impede uma boa parcela da nossa sociedade a conviver, aceitar e socializar com aqueles que não se enquadram no que supostamente seria a cereja do bolo social; a juventude ávida por consumo. 

 

A INTOLERÂNCIA MODERNA



      Recentemente, um vídeo amador captado por um vizinho registrou fatal agressão a um pequeno cão YorkShire, cometida por uma enfermeira de 22 anos, no estado de Goiás. Sabem qual a justificativa pelo ato? O cachorro era por demais travesso a ponto de ser torturado e assassinado.
    A jovem enfermeira cometeu violência grave a um animal por quem deveria zelar e cuidar. Tudo isso na frente de uma criança a quem foi transmitida mensagem que problemas banais como travessuras de um cãozinho devem ser resolvidos através de violência.
    Tenho lido bastante, ultimamente, a respeito de História Medieval, por pura curiosidade e me espanta perceber como a intolerância dos inquisidores ainda está presente de forma evidente em pleno terceiro milênio. Uma colisão de veículos que deveria ser resolvida através de diálogo, presença policial e acordo é motivo de discórdia e agressão, em pleno espaço público.
    Certa vez, fui abordado no centro de BH por um estranho tentando enfiar-me goela abaixo sua religião (como se fosse a única possível e existente). Ao perceber que eu não compartilhava com seu pensamento, estufou as veias da testa, avermelhou-se e por pouco não tentou me agredir em nome de Deus.
    Um motorista de ônibus, não faz muito tempo, foi cruelmente assassinado porque perdeu a direção do veículo e provocou um acidente. Populares entraram no ônibus, desferindo socos, pontapés e pedradas na vítima. Posteriormente, laudo pericial certificou que o motorista perdeu a direção por ter desmaiado segundos antes.
    Voltando ao caso do cachorrinho, após o vídeo ter sido divulgado e disponibilizado na internet, revoltosos usuários de diversos sites de relacionamento multiplicavam-se exigindo o linchamento e até tortura e assassinato da enfermeira, ou seja, violência sendo resolvida e punida através do mesmo e bárbaro erro (a violência); como se não estivéssemos em um momento e local onde a educação formal vem sendo fartamente ofertada à população, assim como diversos princípios éticos e morais (divulgados na mídia, igrejas, etc).
    Querendo ou não, somos todos formadores de opinião e toda vez que nos manifestamos a favor da brutalidade, ensinamos o mesmo a dezenas de outras pessoas. Ou nos tornamos mais tolerantes com as diferenças (sexuais, religiosas, partidárias, esportivas, etc) e deixemos os crimes serem julgados pelo próprio judiciário, contribuindo com um mundo mais justo, ameno, democrático e plural ou continuaremos a presenciar resoluções de conflitos mínimos através das mais ácidas agressões.

 

 

No Banheiro Juntas?

 

         Há muito me ocorreu de conhecer uma garota em uma casa de samba onde eu frequentava. Olhar aqui, olhar ali, gesto cá, gesto acolá, etc. Essa coisa de racionalidade é conversa liberalista, em se tratado de paquera somos mesmo é um bando de bicho atrás do parceiro ideal.

          Pelas tantas da noite e do álcool, tomei coragem e abordei a moça. Se eu dissesse que a situação me estava favorável, estaria mentindo, se dissesse que ela não queria, também estaria mentindo. Só as mulheres e o Machado de Assis conseguem despertar tamanha ambiguidade (nós adoramos). Só que um fato me amedrontou profundamente; de uma hora pra outra, a menina foi ao banheiro, acompanhada.

         Além de eu ter que ganhar a garota ainda teria que demonstrar simpatia à amiga? Céus! O que estariam conversando lá dentro? Será que todas as minhas fichas poderiam ir por água abaixo por causa da colega? Será que sorri ao cumprimentá-la? Será que fui educado com ela?

        Sempre deixou a pulga atrás da orelha dos homens o fato da mulherada ir ao banheiro acompanhada. Alguns confabulam verdadeira conspiração libidinosa, imaginando que elas namorariam por lá. Outros morremos de curiosidade, perguntando-nos em vão. Mulher que é mulher nunca responde o porquê deste mistério da humanidade.

         Se eu encontrasse um traço de tristeza no rosto de uma moça que foi ao banheiro acompanhada, seria capaz de apostar que ali, naquele lugar desconhecido e hermético, houve certamente um desabafo, com choros entalados e direito a beicinho. Seria capaz, porque como todo homem, apesar da curiosidade, não teria certeza.

        Existe a teoria que vocês, leitoras, teriam o horror quase epilético de tocar no vaso. Devido a este zeloso e higiênico hábito, dar-se-iam as mãos para se equilibrar. Outros dizem que o banheiro é o local onde falam mal da gente, se for no trabalho, as orelhas do patrão ficariam em chamas, caso o pobre coitado tivesse em sua equipe um corpo de funcionárias mijonas. Melhor não servir melancia no café.

         Uma amiga bêbada e descuidada deixou escapar o quanto a oitava maravilha do mundo (a mulher) é vaidosa. As misteriosas bolsas carregariam um salão de belezas e no banheiro ele seria instalado. As mulheres dariam retoques no visual e a opinião da parceira seria fundamental, verdadeiro veredito. Mas eu não confio nesta hipótese cegamente. Pode muito bem ter sido blefe da minha amiga.

       Costume antigo, se pensarmos na dificuldade que seria uma donzela do século XIX se livrar das anáguas e vestido para um simples pipizinho, mulheres juntas no banheiro sempre incomodaram e incomodarão a macharada e não vamos nos iludir, leitores, sobre este mistério, nunca chegaremos nem perto de uma resposta.

 

Poesia de Escola

 

“Interpretar é saber que o sentido sempre pode ser outro” (Eni Orlandi) Talvez a poesia seja o gênero literário que mais sofre preconceitos das editoras, já que se publica muito pouco e com ainda menos critério este tipo de texto. E um grande desafio do educador é saber escolher e trabalhar com poesia para crianças.


O primeiro grande problema é a associação errônea do gênero poético a temas de cunho cívico ou patriótico. Como se poesia tivesse por função catequizar indivíduos a um ou outro modo de pensar ou agir. Um poema também não deve ensinar lições de higiene, louvar o dia dos pais ou da mulher, fazer com que a leitor seja religioso nem muito menos ser qualificado unicamente a partir de rimas e lições de moral. Ele não tem função prática.


Ao contrário da forma como é tradicionalmente tratada em escola, a poesia deve fugir de chavões, frases-feitas, versos de efeito moralizador ou educativo. Ela deve subverter a ordem da linguagem, torcer e contorcer o que é falado pelo senso comum, ser revirada “de ponta cabeça” para que cumpra com eficiência sua especificidade de propor ao indivíduo o jogo (tanto de ideias quanto de palavras, se é que se separam), uma visão diferenciada de tudo que está ao seu redor.


Temas dignos de atenção como a escravidão, órfãos abandonados, causa indígena, amante abandonada(o), podem se tornar extremamente piegas, ridículos, se não abordados de uma maneira inovadora, surpreendente. Como exemplo, temos uns versos de Pagu, música de Rita Lee e Zélia Duncan: “Nem toda feiticeira é corcunda/nem toda brasileira é bunda/meu peito não é de silicone/sou mais macho que muito homem”. Aqui é tratado um assunto já muito abordado (mulher objeto), mas através de uma denúncia crítica, criativa e inteligente, quebrando inclusive tabus, mas dificilmente utilizado em meio escolar pela diversidade que esta
instituição abarca - nem toda família, nem todo aluno receberia bem a forma explícita como o nosso mais popular sinônimo de nádegas, por motivos culturais, religiosos, éticos, etc, o que temos que respeitar.

 

Ritmo, ironia, polissemia (atribuição de mais de um sentido a um termo ou expressão) são algumas das características de um texto poético. Não é pelo fato de uma pessoa estar dotada de boas intenções que vai produzir um bom poema. Desconhecemos obra “literária” de qualidade de figuras fantásticas como Madre Teresa de Calcutá, Chico Mendes ou Antônio Conselheiro e, por outro lado, temos Ezra Pound, que apesar de ter tido seus flertes com o fascismo italiano, foi um poeta de primeira grandeza.


Que a poesia seja sempre adotada nas escolas, mas que sejam selecionados autores com real domínio do ofício de escrever, os que sabem realmente eliminar o supérfluo e que possuem a capacidade de emocionar, encantar, surpreender, ridicularizar e satirizar através do belo, do verdadeiro jogo de idéias, sons e imagens que caracteriza um grande
poema.

 

Promoção: não compre!

 

Sou mais um filho dos anos 80. Cresci ouvindo Kid Abelha e Legião Urbana, assistindo ao He-Man e ao Fernando Sasso narrando gol do Éder. Não trago o menor saudosismo disso. É apenas curioso, a meu ver, relembrar estas coisas mas jamais quero voltar e mesmo reencontrar elementos que se perderam no tempo e espaço.

 

Uma das coisas que me acompanharam na década de 80 foi minha primeira literatura; a Turma da Mônica. Tinha disco, pilha de revistinhas que trocava com os colegas, etc. Sempre havia nestes gibis algumas mensagens educativas, que alertavam a galerinha sobre certas questões. Uma delas era a ecologia. Moto-serras derrubando árvores e chaminés industriais eram as maiores vilãs do planeta.

 

Não seria insano em defender a emissão degases e a derrubada de matas, a menos que sustentasse alguma tendência suicida. Sei lá, se eu assim fosse, seria mais original. Assistiria a uma entrevista inteira da Luciana Gimenez ou ao programa do Faustão. De repente ouvir Latino...são tantas as formas de autodestruição.

 

Voltando à questão ecológica, vejo uma mudança de foco em relação aos vilões do planeta. Só existem motosserras derrubando florestas porque há quem consuma os bens dali provenientes. Só há indústrias bafejando gases pro céu porque criamos uma sociedade pautada no poder de compra. Hoje é muito nítido o “vale quanto pesa”. Ou você tem grana ou está fora do jogo. E grana pra quê? Muitas vezes para financiar o dispensável.

 

Vivemos na sociedade do efêmero. Celebridades (que geralmente não são célebres) sustentam seu reinado da futilidade apenas até a próxima tomar-lhe o posto. Pessoas e coisas são substituídas numa engrenagem implacavelmente feroz. Ai do jovem que não tiver o celular da última geração, que não estampar a marca da moda na blusa. Enquanto isso, o que já foi tendência meses atrás nutre nossos lixões ou engorda, entope guarda-roupas.

 

Não podemos ver promoções de supermercados que já queremos saciar nossa sede diária de consumo. Tenho uma conhecida que se aproveitou tanto de uma liquidação de arroz que teve de sair doando pra que o produto não vencesse. Arroz-doce, bolinho de arroz, pão de arroz, arroz à grega. Imaginem o cardápio da pobrezinha.

 

A sociedade do novo milênio reproduz o que antes apenas as crianças faziam. Ficamos loucos, alucinados, coçamo-nos para obter um produto e enjoamo-nos dele com uma rapidez alucinante porque já é hora de comprarmos outro. E o culpado disso não é o comércio que nos incentiva, não são as propagandas tentadoras, não é a vitrine sedutora, somos nós mesmos.

 

Se quisermos colaborar realmente com o planeta, não basta apenas plantarmos uma arvorezinha aqui e acolá. É necessário acima de tudo consumir com consciência. Devemos parar de obter o que é dispensável, responsabilizarmo-nos efetivamente com a produção de lixo e suportarmo-nos sem necessariamente termos que nos deixar levar pelas garras do monstro contemporâneo: o consumo desregrado.

 

Por que não se Leem os Clássicos?

 

Não, este texto não carrega a mínima pretensão de seriedade (por mais questionável que seja o termo). Aqui não trarei conclusões nem tampouco uma análise que seria digna de um artigo de opinião. Mas porque ser digno? Por que ser de opinião?

  

Uma grande indagação vem me visitando há tempos e não vejo a mínima possibilidade de aquietá-la. É quase um senso-comum, um clichê, a afirmação de que o brasileiro não lê e estaria eu em um patamar de insanidade abissal caso não endossasse tal assertiva, principalmente comparando os pentacampeões a outros povos, como franceses, alemães e até argentinos e chilenos. É fato que não lemos como o esperado.

  

Mas minha indagação não provém de uma análise apurada e nem mesmo de dados estatísticos, ou seja, estou longe de afirmar que a leitura ausente é comum ao sertanejo faminto e ao executivo paulistano, de classe média alta, provindo de escola particular. Percebemos realidades diferentes do povo brasileiro. Nossa heterogeneidade.

 O ponto chave que retorceu qualquer gérmen de opinião que eu ostentava sobre o assunto é que best-sellers estão sempre entre as obras mais lidas no país. A questão é que não se tratam de livros finos, com figuras e letras gigantes. Falo de catatais de mais de 300 páginas. 

  

Pela experiência em sala de aula, tenho percebido que tal leitura tem sido predileção tanto dos alunos economicamente mais abastados, quanto dos mais carentes, de escolas públicas e particulares. Assim, podemos levantar uma indagação; os clássicos literários como Machado de Assis, Eça de Queirós e Guimarães Rosa não são lidos não é pelo tamanho.

  

Anjos e Demônios, O Código Da Vinci e Harry Potter interessariam ao leitor tupiniquim por serem estrangeiros? Seria a velha herança colonial de valorizar o que vem de fora? Estaríamos novamente nos trajando de blusões lusitanos em pleno fogo dos trópicos? Seria uma possível resposta se autores igualmente forasteiros e contemporâneos como Mia Couto e José Saramago andassem debaixo dos braços da estudantada.

Em relação ao acesso, bibliotecas e livrarias dividem lado a lado Dan Brown e José de Alencar, a internet possui uma infinidade de sites e blogs com livros inteiros e gratuitos da ampla maioria dos clássicos. Editoras vêm popularizando grandes obras em preços muito inferiores do que se gasta em duas horas de bar ou restaurante. Dinheiro não tem sido o problema.

Só me resta terminar este vago texto com duas hipóteses sobre a rejeição aos clássicos; ou a dificuldade em lê-los encontra-se na incompreensão (de parte dos professores, pais e alunos) ou é chique gostar do que está na moda e que não se exige raciocínio, assim como ocorre com a música vitimizada pela indústria cultural.

 

 

O Caso Rafinha Bastos

 

Um dos assuntos em que encontro mais seriedade ao tratar e que ao mesmo tempo encaro como fundamental à existência humana é o humor. Não há ambiente que não se torna leve, não existe situação que não se ameniza perante o humor inteligente, bem enquadrado e contextualizado ao momento em questão.

  

Mas tão abjeto quanto aquele incapaz de lidar com o cômico é o indivíduo que, em nome da liberdade de expressão e da criação do riso, submete o outro a uma situação vexatória, infame, vil, afetando direta ou indiretamente sua dignidade humana. Assim o fez o humorista Rafinha Bastos, no dia 19 de setembro, no programa CQC, da Rede Bandeirantes, ao sugerir que teria relações sexuais com a suposta “cantora” Wanessa Camargo e, pasmem-se, com o bebê dela.

  

Programas de humor na atualidade batem em um ponto que tem dado certo. Transgredir a divindade das ditas “celebridades midiáticas” foi e ainda é uma ótima pedida porque de um jeito ou de outro quebra paradigmas de que se tratam de serem intocáveis, perfeitos, de louça e os trazem à nossa realidade humana. Um dia vi a Ana Hickmann nervosa, nem sabia que ela tinha nervos. Sempre aquela expressão sueca, fria, sem sal, cheirando a sopa de hospital.

  

Continuando com o caso Wanessa Camargo, tive o desprazer de pesquisar a produção musical desta moça e dentre as 15 canções mais acessadas da net, todas, exatamente todas tratam exaustivamente do mesmo tema (“amor”) e com os mesmos chavões utilizados por aqueles que, despindo-se da criatividade, acreditam que música é apenas um meio de se ganhar notoriedade e dinheiro, maculando-se a si próprios com títulos como; O Amor Não Me Deixa, Me Engana Que Eu Gosto, etc e usando de um corpo malhado para fazer com que creiam que sejam seres por cima da carne seca.

  

Trocando em miúdos, não seria nenhum desafio fazer humor com tal criatura. Agora, utilizar-se da imagem de um bebê, associada a uma piada de cunho sexual pegou mal, foi péssimo, Rafinha! Basta se informar um pouco e procurar uma entrevista dessa garota para se verificar sua futilidade, o quanto ela mesma se esforça para transparecer que seu único predicado é o corpo. Uma figura facílima de ser ironizada.

  

Mesmo que fosse filho do Mozart, do Chico Buarque ou do Machado de Assis, pegaria muito mal dizer que se faria sexo com um bebê, ainda que no contexto humorístico. Rafinha Bastos é uma figura pública e como tal deve saber que é criador de opiniões e um pingo de bom-senso e precaução é fundamental àqueles que transmitem ideias através da mídia. Bola cheia ao humor inteligente e criativo; bola murchíssima (epa!) ao Rafinha por este caso específico.

 

 

 

OS SINCERICIDAS

 

            “O ataque de uma borboleta agrada mais do que todos os beijos de um cavalo”. A assertiva de Mário Quintana é extremamente esclarecedora ao que denominamos sincericídio, ou seja, todos os atos linguísticos que se maquiam sob o embuste da sinceridade e do caráter para ferir o próximo. Sincericida que é sincericida irá lhe atirar os mais dolorosos insultos sob o pretexto de ser o portador único e universal da verdade.

 

            Não, leitor, este texto não é um tratado, um elogio à falsidade descarada, satírica de um Gregório de Matos ou mesmo a mais delicada dissimulação machadiana. Não, esta despretensiosa crônica não dá as mãos aos nobres parlamentares que faltam com a verdade, aos elegantes portadores da palavra sagrada e benzida a dízimo fervoroso ou aos vendedores de muambas nos centros das capitais, com seus discursos ensebados de uma mentira consentida, quase necessária, quase vital.

 

            Quer dizer que para a comunicação se efetivar é necessário o tempero acre e pesado da ira? Ou você despeja espinhos ao pobre do seu ouvinte ou se incorrerá à mais torpe das fraudes? Quem foi que disse ser a sinceridade aliada da má-criação e do desrespeito?

 

            O ser humano é um animal dotado de linguagem organizada em códigos e através deles conseguimos (ou pelo menos deveríamos) organizar nosso pensamento para que possamos não apenas informar mas nos socializarmos em uma comunidade através de princípios éticos e normas de convivência. Dentre estas normas, pelo menos no Brasil, a civilidade e a cordialidade ainda desempenham papel de destaque.

 

            A fala com farpas fere o ouvinte, que geralmente responde à altura, o que muitas vezes acaba até em tragédia. Ainda que minimamente trabalhoso, o ato de selecionar e organizar palavras, tons e volume, além de saber noções de situação e contexto, é fundamental para uma comunicação mais eficiente, proveitosa, respeitosa, harmoniosa. E isto não faz com que, per si, o usuário seja partidário do cinismo. Defendendo o contrário, estamos compactuando com a fala preguiçosa e pouco elaborada do desrespeito, da grosseria.

 

            Até mesmo a omissão e o silêncio são atos comunicativos extraordinários a uma convivência pacífica e agradável, pois tanto podem refratar um desentendimento quanto podem instruir, educar um ouvinte. E isto não faz de um cidadão um loroteiro ou um enganador.

 

            Talvez por motivação histórica, estamos acostumados a associar a fala rude e grosseira com a sinceridade mas a civilidade, a cortesia e a elaboração de uma linguagem trabalhada através da seleção e da combinação de tons e palavras, associados a contextos e situações, não é um sinal de etiqueta (este setecentismo embolorado) mas um elemento indispensável a uma convivência mais pacífica, respeitosa e até mesmo diplomática. Comunicar é um ofício trabalhoso, que requer conhecimento, bom senso e até talento, como andamos praticando este dom?